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Do Ceará, da Bahia, de Brasília ao exílio: a participação de Heron de Alencar na UnB

Categoria: Artigos
Escrito por Por Carla Patrícia Santana

Neste artigo, a professora Carla Patrícia Santana (UNEB) descreve com detalhes o envolvimento do acadêmico e crítico literário Heron de Alencar com a construção da  Universidade de Brasília

 

(Professora Adjunta da UNEB - Universidade do Estado da Bahia)

Extraído, com pequenas modificações, do texto publicado na Revista Cerrados: Revista do Programa de Pó-Graduação em Literatura do Programa de Pó-sgraduação em Literatura / Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília. Vol. 21, No 34 (2012): Revista Cerrados: Memória, arte e pensamento - Dossiê Letras – UnB – 50 anos. Título do texto: Um barracão, jovens professores e um projeto de universidade-intectualidade nacional: a unb a partir do olhar do crítico literário Heron de Alencar. Disponível em:  http://seer.bce.unb.br/index.php/cerrados/index


“Lembro ao governo e à Universidade: vamos dar a Heron o lugar que ele merece” Glauber Rocha, 1961.

Entre os muitos brasileiros saídos de diferentes lugares do país que estiveram envolvidos no projeto de construção da Universidade de Brasília assumindo diferentes tarefas e alguns envolvidos na concepção do seu curso de Letras, estava Heron de Alencar, professor de literatura brasileira, jornalista, crítico literário e considerado o primeiro vice-reitor da Universidade de Brasília.

“Heron de Alencar, das pessoas que mais contribuíram para dar forma à estrutura universitária.” Darcy Ribeiro, Testemunho, p. 141

Nascido em 1921 em Crato, Ceará, ainda menino, Heron de Alencar se mudou para a Bahia. Em Salvador, atuou na imprensa local como redator da Página de Literatura do, hoje, maior jornal do Norte-Nordeste, o A Tarde, onde manteve uma coluna de divulgação e crítica literária, além de ter se envolvido em inúmeros movimentos culturais locais, tornando-se uma referência na cidade. Em 1948 foi Diretor da secção de Bibliotecas e Museus Escolares, da Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia - Plano de organização e instalação de bibliotecas e museus escolares na Cidade do Salvador, ao Secretário de Educação Prof. Anísio Teixeira. Ingressou na Universidade como professor de literatura e ganhou relevo no meio acadêmico por ter desempenhado um papel de destaque naquele espaço a partir de 1950, como assessor do então Reitor Prof. Edgar Santos. Foi então que se iniciou seu processo de pensar a Universidade, quando apresentou propostas de mudanças para o desempenho da instituição na sociedade destacando-se, também, neste campo. Aliás, desde essa época preocupava-se com a formação de um grupo consolidado que atuasse de maneira sistematizada dentro da Universidade. Daí ao convite feito por Darcy Ribeiro, certamente por indicação de Anísio Teixeira, para se engajar no grande projeto da nova universidade foi um pulo: fez parte da comissão de organização da fundação da Universidade de Brasília.

Estando em Brasília, começou a trabalhar com a equipe convocada por Cyro dos Anjos, então responsável pela coordenação do Instituto Central de Letras, o qual, seguindo as instruções da Reitoria, convidou para ocuparem a função de Consultores Heron de Alencar, Agostinho da Silva, Aryon dall’Igna Rodrigues, Ennio Sandoval Peixoto, Manuel Rodrigues Lapa e Antônio Cândido de Melo e Sousa (Ofício enviado por Cyro Versiani dos Anjos ao então reitor da Universidade de Brasília, Darcy Ribeiro, em 19 de fevereiro de 1962). Heron assume as funções de coordenador das atividades de Pós-Graduação e de professor de Literatura Brasileira e Cultura Brasileira além de exercer o cargo de secretário-executivo do curso de Letras Brasileiras.

Neste mesmo período, foi membro da comissão de estudos para a reorganização da Universidade Brasileira e das Faculdades de Letras do Brasil, no Ministério da Educação. Foi membro do Conselho Diretor da Fundação Cultural de Brasília e do Conselho Federal de Educação, da Presidência da República. Como decorrência, participou de inúmeros eventos: Conferência Nacional de Educadores do Ministério da Educação, em Brasília, Simpósio sobre Organização Universitária, Simpósio sobre Organização e Estrutura das Faculdades de Filosofia e Simpósio sobre o Estatuto do Professor Universitário, todos estes promovidos pela Diretoria do Ensino Superior, MEC.

“Não estarei exagerando se disser que esta lição do meu querido Heron inaugura uma nova Universidade, marca um espírito novo.” Luiz Henrique Dias Tavares, Salvador, 2 mar. 1961.

Sobre essa experiência, escreveu muito, antes e depois do exílio político a que foi submetido em consequência da “invasão norte-americana no Brasil”. Cito: “Estrutura da Universidade de Brasília”, para a Comissão de Estudos sobre a Reorganização da Universidade do Brasil; “A Universidade de Brasília, projeto nacional da intelectualidade brasileira”, para a Conferência Nacional de Educadores (publicado como Apêndice I no livro de Darcy Ribeiro (1969), Unb - A Universidade necessária). Antes havia escrito sobre a necessidade de regionalização das universidades, em Universidade: Região e alienação cultural, 1961.

Assim como muitos outros brasileiros, viu esses planos serem interrompidos pelo golpe militar de 64, sua biblioteca foi destruída, seus colegas foram perseguidos e ele próprio enclausurado, junto com dezenas de outros companheiros, na embaixada do México. Do México, passa por Cuba, Tchecoslováquia, Paris, Argélia, Tchad. Em cada lugar, pronunciamentos que versavam sobre a realidade brasileira, a experiência da UnB, projetos de outras universidades e de resistência à invasão no Brasil. Como Delegado convidado à Assembleia Mundial da Educação, realizada em setembro do mesmo ano, no México, apresenta o texto “A Universidade Brasileira e a Universidade de Brasília”.

De volta, só em fins de 1971, pelas mãos de Oscar Niemeyer – seu amigo irmão, companheiro desde Brasília e nos projetos das universidades da Argélia. Vitimado por um câncer, é entregue a Paulo Niemeyer que o leva ao hospital, vigiado pelo polícia política. Falece no primeiro dia do ano de 1972, no Rio de Janeiro não podendo, portanto, retornar à Bahia nem a Brasília.

Inicialmente alojados em barracões no campus de uma instituição em formação, muitos professores debatiam ideias e projetos na sala de estar comum a todos ou no único refeitório do lugar, junto com os alunos (Informações de Ivia Alves que esteve, no ano de 1963, fazendo um estágio como bolsista de Iniciação Científica do CNPQ, assistindo aulas de Letras e alojada com os professores ). Sobre o processo de construção da Universidade de Brasília, Heron de Alencar escreveu textos e deixou muitas anotações em rascunhos. Em um destes seus textos, escrito após a invasão e a ocupação militar de 1964, refletiu:

A Universidade de Brasília era um fato novo no processo da cultura brasileira. Sua criação foi o resultado de tomada de consciência coletiva no sentido de uma resposta realista para os movimentos orgânicos da sociedade brasileira. Ela não foi, portanto, uma imposição à realidade. Ela não nasceu desta alienação tão conhecida em nosso passado, até mesmo de um passado próximo, que consistia em se querer, nem que fosse de forma aparente, no mesmo nível material, tecnológico e científico que as Universidades dos países ditos desenvolvidos. Ao contrário, o projeto da UnB resultava da convergência de experiências de um grande número de professores e pesquisadores, cada um deles se expressando a partir de sua confrontação muitas vezes dramática com a problemática brasileira, fosse ela universitária, social, política ou econômica. Isto é: em vez de se alienar, de perder de vista as necessidades e as possibilidades de seus contextos de trabalho, eles traziam para a elaboração do projeto da UnB novos dados e categorias de trabalho, oriundos de uma análise muito concreta e incessantemente aprofundada de suas situações vividas, tanto a nível universitário quanto a nível nacional. (Heron de ALENCAR. A Universidade de Brasília, projeto nacional da intelectualidade brasileira, publicado como Apêndice I no livro de Darcy Ribeiro, A Universidade necessária,1969).

Conheci Heron em Brasília, quando organizávamos a Universidade do Distrito Federal. Juntos colaborávamos nessa obra esplêndida que marcou um momento decisivo do ensino em nosso país, quebrando velhas rotinas, preconceitos e normas superadas; abrindo para a Universidade um campo novo, atualizado e flexível, capaz de atender a todas as solicitações da vida brasileira.

Recordo seu entusiasmo e a convicção com que lutava pelas reformas indispensáveis, e a clareza com que defendia seus pontos-de-vista, baseados em muitos anos de estudo e saber. E o fazia dentro de uma linha política progressista, visando a grandeza de nossa pátria, sua independência econômica e política [...]

NIEMEYER, Oscar. O irmão Heron. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 jan. 1972